Um Ato de Coragem
“Argh...”
Essa dor... Onde Estou?
Começou como um latejo e aos poucos aumentando e me trazendo de volta a consciência. Abro, então, os olhos e uma forte luz me cega, forçando a fechá-los. Isso faz com que a dor se torne lacerante, parecendo que minha cabeça iria explodir. Minhas costas também latejam, e só agora percebo que estou sentado. As mãos amarradas às costas da cadeira e os tornozelos presos aos pés dela.
De repente as memórias afloram como um raio, primeiro, em flashes e em seguida mais concretas do que nunca, sinto como se estivesse vivendo tudo novamente. Apesar de não saber exatamente onde estou, sei o que fiz para estar aqui.
Não consegui escapar do cerco dos soldados da Earth.
Tento engolir em seco, mas minha garganta dói muito, e um gosto metálico terrível de sangue domina minha boca.
- Ele acordou, chame o Tenente Sparring.
A voz, que parece surgida de meu mais sombrio pesadelo em tom gutural e arrastada, serve para identificar o nome de meu captor. Estou indefeso e à mercê dos caprichos desses malditos infernais.
A maldita pílula!
Covardia...
Essa simples palavra e de significado tão forte, é por isso estou aqui e colocando em risco todo um ideal de um grupo.
Fui covarde por não ter engolido a pílula e o medo me fez cuspí-la. Por que nos contam os efeitos dela em nosso organismo? Era só dizer que estávamos salvos da tortura e iríamos para um lugar bem melhor...
PRONTO!
Menos um militante, e os segredos continuariam a salvo, mas não...
Você vai entrar em convulsões enquanto ela ataca todo seu intestino, sua boca começará a espumar as dores farão seus músculos contraírem-se e sua língua se enrolará. Aí você ficará sem ar, mas as dores não te deixaram lembrar desse fato. Quando tudo parecer insuportável vem o colapso... Fim!
Parker, seu Filho de uma puta! Por que foi querer saber os efeitos? Por que não tive coragem para tomá-la? Por que estou aqui?
As dores não diminuíram, mas é como se não as tivesse sentindo, tamanho meu desespero quanto ao que pode vir a seguir. As lágrimas irrompem e queimam minha face. Serei torturado até que fale ou morra. Caso tenha sorte, não durarei muito tempo.
O barulho da porta se abrindo me traz de volta a realidade, tento mais uma vez abrir os olhos, mas ainda não estou preparado para as fortes luzes, pisco várias vezes em uma tentativa desesperada de enxergar alguma coisa. Aos poucos minha visão vai se focando e os olhos se acostumam as luzas. É uma sala grande e despida de móveis. Um ladrilho branco cobre todo chão da sala e as paredes até sua metade. Há apenas uma porta na sala e fica quase que exatamente de frente para mim.
A pessoa que acaba de entrar, provavelmente o responsável por conseguir respostas de mim, é homem de estatura média, cabelos aparados como no exército e um cavanhaque meticulosamente aparado. Os olhos são firmes e a expressão é enigmática. Quando seu olhar confronta o meu um sorriso brota no canto de seus lábios e a expressão se torna ainda mais enigmática.
- Finalmente acordou!
Apesar da calma e maciez com que fluía por meus ouvidos, essa voz me deixou muito mais amedrontado do que a anterior. Ele caminhou lentamente até se postar exatamente a minha frente. Abaixou-se levemente para poder me olhar melhor e, diferentemente do que minha imaginação poderia associar a um ser infernal, o cheiro era bom. Sua colônia tomou conta de minhas narinas e o medo a minha mente.
- Qual é o seu nome? – Novamente, a maciez e calma daquela voz me perturbavam. – Mas o que há com você? É incapaz de articular uma resposta?
- Gera... ARGH!...
Mas como a dor é intensa! Mal consigo falar e sinto uma ardência incrível em minha garganta, novamente aquele gosto de sangue. Tento pigarrear, limpar a garganta para, pelo menos, poder falar alguma coisa. Poder ganhar tempo para fazer algo.
- Gerard Gr-Grant.
- Muito bem!
Som de palmas, como um deboche. O que esse Sparring é afinal de contas?
- Agora tente me dizer, o que estava fazendo naquela fábrica depois do horário de recolher? Sabe que aquela área é proibida, não é?
- Gerard Grant.
Exatamente como fomos treinados, apenas podemos dar a eles nossos nomes, ou melhor, o nome com o qual nos conhecemos em nosso grupo. Nossas identidades verdadeiras há muito foram apagadas dos registros, ou ainda, muitos nunca foram registrados por terem nascidos entre nós.
Meus pensamentos são abruptamente cortados por um forte tapa no rosto. Sinto o tal Sparring se debruçando sobre mim. As mãos apertam minhas bochechas de forma a machucar. E agora quando ele fala sinto sua respiração muito perto de meu rosto. A voz toma um tom muito baixo, ao contrário do que eu esperava.
- Não me venha com essa mesma repetição... Acredito que não seja a única coisa que sabe dizer em meu idioma.
- Gerard G...
Sem nem poder terminar a frase, recebo uma pancada na nuca. A dor percorre todo meu corpo como uma corrente elétrica e faz com que minha cabeça pareça estar a ponto de explodir. O gosto de sangue agora inunda minha boca, e em um ato reflexo eu o cuspo, mas infelizmente o Tenente não está mais a minha frente. E antes que eu me recuperasse da primeira, uma segunda pancada acerta em cheio o meu rosto. Essa certamente me fez perder algum dente, pois a dor me toma de assalto e uma golfada de sangue é arrancada de minha boca. A dor é forte, e como se não tivesse limites segue em vertiginosa ascendência...
... mas...
... espere, vejo uma saída. Sim, no canto atrás de uns caixotes, parece haver um buraco na parede que leva até um daqueles sistemas de esgoto. As luzes continuam sendo jogadas em todas as direções, a caçada não está nem perto de acabar. Algumas vozes passam do lado de fora do armazém e a ausência de um teto faz com que alguns feixes de luz sejam jogados aqui dentro pelos helicópteros de busca. Sei que minhas chances são mínimas, mas ainda assim tenho que tentar. É a única chance de fuga que tenho, e não terei como avisar Jack e Gillegard. Eles terão de se virar sozinhos.
Um momento de hesitação, e quando estou para correr um barulho me segura. Olho quase em desespero para o canto direito e vejo a fonte de meu susto. Um pequeno camundongo se delicia com farelos de alguma coisa. Um alívio percorre meu corpo tirando um pouco da tensão que me domina. Mas um rápido pensamento me faz estremecer novamente.
- Onde raios coloquei a merda da pílula?
As palavras saem em um cochicho, mas ainda assim fico imóvel para tentar escutar qualquer movimento estranho. Quando me sinto um pouco mais seguro, começo a tatear em busca da minha salvação (morte). Encontro-a no bolso lateral de minha calça, e tremulamente – mas desde quando estou tremendo? – retiro a embalagem que a envolve. Levo a pílula até uma posição onde possa enxergá-la...
Tão pequena, tão fatal. Vermelha como o sangue e mortal como esses depravados contra os quais lutamos.
“Será que as futuras gerações serão herdeiras ou apenas sobreviventes nesse mundo”?
Quase sem querer essas palavras surgem em minha cabeça, mas onde foi que a vi, tenho certeza que as tirei de algum lugar. Mas isso não é hora para pensar nessas coisas. O certo é que somos apenas sobreviventes e lutando para que as futuras gerações se tornem herdeiras desse mundo!
Sem pensar, coloco a pílula em baixo de minha língua e espero apenas o suficiente para as luzes deixarem a passagem às escuras e começo a correr. Vejo, agora, o meu local de fuga tão perto que já me sinto até mais tranqüilo por não ter que engolir o que seria minha morte. Quando finalmente resolvo cuspir a maldita, e me preparo para mergulhar em direção ao buraco, sou lançado aos céus por uma explosão bem atrás de mim. Uma pancada violenta me acerta na lateral, na altura da costela. Antes de perder os sentidos um último pensamento me ocorre enquanto olho o pequeno comprimido a poucos centímetros de mim, mas completamente sem forças para pegá-lo...
“Lutaremos até a morte”!
... mais uma pancada me atinge e sinto como se tivessem enfiado uma faca em meu lado. Minhas costelas estão praticamente cortando meus pulmões.
- Acorde.
Aquela mesma voz, que segue a me atormentar, por quanto tempo? Horas, dias, semanas? Até que eu lhe diga algo que ele julgue útil, se eu tiver sorte morrerei antes, senão...
Sinto nojo dessa gente, ou talvez seja pena. Nenhum deles tem um ideal pelo qual lutam. Não se importam com o que conseguirão aqui, nessa sala esta noite. Se eu não resistir e lhes der algo serão congratulados e mais mortes virão por aí. Mas caso resista e não lhes conte nada, terão um divertimento por algum tempo me batendo e torturando, talvez façam apostas para ver até quando agüentarei vivo, realmente não se importam, desde que tenham seu pagamento no final do mês.
Pra eles, sou apenas trabalho, aquele que os fazem cumprir doze horas de serviço diários. Pra mim eles são a escória, a merda que eu e meus companheiros queremos limpar desse mundo. Eles são os responsáveis por tornarem o mundo a o lugar desprezível que é hoje, a criminalidade, o medo, a miséria e a morte. Tudo isto domina a nossa população e faz com que nos tornemos submissos a esses bastardos.
- Sei o tipo de pessoa que você é – começou o tenente, todo imponente. – Estou acostumado com vocês. Tragam o Dr. Kerry!
Antes que a ordem fosse totalmente proferida já havia um soldado pronto para atendê-la. Este saiu tentando parecer disciplinado, mas o medo estava estampado em seu rosto. Logo, minha visão foi impedida pelo Tenente. Novamente, ele parava a minha frente e, mais uma vez sua calma me arrepiava.
- Fique tranqüilo, logo falará tudo o que queremos saber. E não sentirá dor alguma...
Ao dizer essas palavras ele se virou, antes que pudesse entender o que se passava em sua face. Caminhou em direção a um guarda que estava no canto da sala, e lá ficou. Dando as costas para mim e me deixando remoendo meus pensamentos. Mas o que ele quis dizer com “não sentirá dor alguma”? É mais um de seus truques? Estaria ele querendo brincar com minha mente?
Quando minha cabeça está para entrar em parafuso, a porta se abre com um rangido até estatelar na parede. Um homem baixo e magricela está parado no centro e com ele uma maleta. Um pequeno óculos se pronunciava na ponta de seu nariz a testa franzida parece me observar dos pés à cabeça. Toma um longo tempo nesse pequeno ritual que me deixa bastante nervoso. Forço-me a olhar ao redor e todos parecem similarmente estáticos, esperando pela entrada do pequeno doutor. Não me demoro nem dez segundos nos soldados e quando volto a olhar para a porta somente encontro o corredor vazio e a porta a se fechar. Foi uma visão? Um barulho, olho na direção e encontro o pequeno e assustador ser parado em frente a uma discreta bancada com sua maleta aberta e de lá ele retira uma enorme agulha seguida da seringa, maior e mais amedrontadora.
- Não se preocupe Gerard, logo estará nos contando tudo que queremos saber.
Uma pequena risada se seguiu. Sei que estou assustado, mas não tenho a menor intenção de tentar esconder isso. Aliás, devo estar parecendo um cão acuado, olhando rapidamente em todas as direções que ouço qualquer barulho e tentando me defender de qualquer coisa que possa me atacar. E um cão acuado tende a atacar quem quer que o ameace.
Sim, atacar. Essa é minha única salvação. Atacar quem me ameaça. E quem me ameaça agora é este doutor baixo e magricela com esta enorme seringa na mão. Tenho que esperar o momento certo.
Agora ouço os passos do pequeno doutor, são tão macios e rápidos e por essa razão não notei quando entrou na sala. Vasculho a sala à procura da caça e finalmente o vejo se dirigindo para as costas de minha cadeira, provavelmente se preparando para injetar algum tipo de coisa em meu corpo.
- Espere doutor!
A voz saiu de forma totalmente diferente do modo como o tenente falava anteriormente, era rápida, talvez nervosa. Ele estava apreensivo com o que estava prestes a acontecer, mas por algum motivo queria atrasar as coisas. Pigarreou de leve, quase imperceptivelmente. Ele refez a máscara de Tenente calmo e impassivo quando voltou a falar:
- O Dr. Kerry injetará o líquido em seu pescoço, através da aorta, assim ele rapidamente se espalhará por seu corpo, inclusive o cérebro. Você não mais terá controlo de suas ações e menos ainda de seu raciocínio. Suas forças serão nulas e a vontade de lutar mínima. Entregará de bom grado qualquer informação que queiramos.
Um breve momento de silêncio tomou conta da sala.
- Pode apostar nisso! – Por fim ele completou.
Então esse é o plano. Só vou ter uma chance. O doutor já havia se colocado atrás de mim e havia se preparado para aplicar o líquido em minha nuca. Apesar do que eu supunha esse breve instante demorou uma eternidade, mas minha vida não passou na frente dos meus olhos de maneira alguma.
Virei meu pescoço o máximo possível para poder ver o dr baixinho se preparando para agulhar o meu pescoço. Quando entra em meu campo de visão, percebo que seu braço já está percorrendo um arco em direção ao alvo.
- Só terei uma chance! – essas palavras saem em um balbucio, quase sem querer.
Tudo ocorre em uma fração de segundos.
Arqueio para frente o corpo o máximo que posso e que as amarras permitem. Em seguida impulsiono com os pés e me jogo de volta contra o braço do Doutor, que sem tempo para uma reação, segue com o movimento para me cravar a seringa. A enorme agulha rasga minha nuca e atravessa minha garganta fazendo o sangue jorrar e dominar minha boca. Apesar do que eu pudesse esperar não sinto dor alguma. Sei também que os planos da BIOS estão completamente a salvos, no que diz respeito a mim.
Quase que involuntariamente uma risada brota no canto dos meus lábios quando veja as expressões aturdidas na cara do Tenente e de seu soldado, também posso imaginar quão espantado estaria o Doutor Kerry. Os sons somem completamente de meus ouvidos, mas sei que a gritaria é frenética e estão todos querendo me reviver, mas cada vez me sinto mais próximo de estar a salvo e de ter conseguido proteger as futuras gerações.
A agulha é retirada fazendo mais uma golfada de sangue esguichar de minha boca. A visão começa a ficar turva, mas ainda consigo ver o Tenente gesticular de forma quase histérica, o que me dá a certeza de que eu seria a única chance de ele descobrir nossos planos. Lentamente essa imagem vai também sumindo de minhas vistas e a escuridão começa a dominar tudo, até que o vazio predomina.
Mas ainda assim estou feliz...
No final, tenho mais do que certeza...
A missão foi cumprida e eu fiz o meu melhor!
Essa dor... Onde Estou?
Começou como um latejo e aos poucos aumentando e me trazendo de volta a consciência. Abro, então, os olhos e uma forte luz me cega, forçando a fechá-los. Isso faz com que a dor se torne lacerante, parecendo que minha cabeça iria explodir. Minhas costas também latejam, e só agora percebo que estou sentado. As mãos amarradas às costas da cadeira e os tornozelos presos aos pés dela.
De repente as memórias afloram como um raio, primeiro, em flashes e em seguida mais concretas do que nunca, sinto como se estivesse vivendo tudo novamente. Apesar de não saber exatamente onde estou, sei o que fiz para estar aqui.
Não consegui escapar do cerco dos soldados da Earth.
Tento engolir em seco, mas minha garganta dói muito, e um gosto metálico terrível de sangue domina minha boca.
- Ele acordou, chame o Tenente Sparring.
A voz, que parece surgida de meu mais sombrio pesadelo em tom gutural e arrastada, serve para identificar o nome de meu captor. Estou indefeso e à mercê dos caprichos desses malditos infernais.
A maldita pílula!
Covardia...
Essa simples palavra e de significado tão forte, é por isso estou aqui e colocando em risco todo um ideal de um grupo.
Fui covarde por não ter engolido a pílula e o medo me fez cuspí-la. Por que nos contam os efeitos dela em nosso organismo? Era só dizer que estávamos salvos da tortura e iríamos para um lugar bem melhor...
PRONTO!
Menos um militante, e os segredos continuariam a salvo, mas não...
Você vai entrar em convulsões enquanto ela ataca todo seu intestino, sua boca começará a espumar as dores farão seus músculos contraírem-se e sua língua se enrolará. Aí você ficará sem ar, mas as dores não te deixaram lembrar desse fato. Quando tudo parecer insuportável vem o colapso... Fim!
Parker, seu Filho de uma puta! Por que foi querer saber os efeitos? Por que não tive coragem para tomá-la? Por que estou aqui?
As dores não diminuíram, mas é como se não as tivesse sentindo, tamanho meu desespero quanto ao que pode vir a seguir. As lágrimas irrompem e queimam minha face. Serei torturado até que fale ou morra. Caso tenha sorte, não durarei muito tempo.
O barulho da porta se abrindo me traz de volta a realidade, tento mais uma vez abrir os olhos, mas ainda não estou preparado para as fortes luzes, pisco várias vezes em uma tentativa desesperada de enxergar alguma coisa. Aos poucos minha visão vai se focando e os olhos se acostumam as luzas. É uma sala grande e despida de móveis. Um ladrilho branco cobre todo chão da sala e as paredes até sua metade. Há apenas uma porta na sala e fica quase que exatamente de frente para mim.
A pessoa que acaba de entrar, provavelmente o responsável por conseguir respostas de mim, é homem de estatura média, cabelos aparados como no exército e um cavanhaque meticulosamente aparado. Os olhos são firmes e a expressão é enigmática. Quando seu olhar confronta o meu um sorriso brota no canto de seus lábios e a expressão se torna ainda mais enigmática.
- Finalmente acordou!
Apesar da calma e maciez com que fluía por meus ouvidos, essa voz me deixou muito mais amedrontado do que a anterior. Ele caminhou lentamente até se postar exatamente a minha frente. Abaixou-se levemente para poder me olhar melhor e, diferentemente do que minha imaginação poderia associar a um ser infernal, o cheiro era bom. Sua colônia tomou conta de minhas narinas e o medo a minha mente.
- Qual é o seu nome? – Novamente, a maciez e calma daquela voz me perturbavam. – Mas o que há com você? É incapaz de articular uma resposta?
- Gera... ARGH!...
Mas como a dor é intensa! Mal consigo falar e sinto uma ardência incrível em minha garganta, novamente aquele gosto de sangue. Tento pigarrear, limpar a garganta para, pelo menos, poder falar alguma coisa. Poder ganhar tempo para fazer algo.
- Gerard Gr-Grant.
- Muito bem!
Som de palmas, como um deboche. O que esse Sparring é afinal de contas?
- Agora tente me dizer, o que estava fazendo naquela fábrica depois do horário de recolher? Sabe que aquela área é proibida, não é?
- Gerard Grant.
Exatamente como fomos treinados, apenas podemos dar a eles nossos nomes, ou melhor, o nome com o qual nos conhecemos em nosso grupo. Nossas identidades verdadeiras há muito foram apagadas dos registros, ou ainda, muitos nunca foram registrados por terem nascidos entre nós.
Meus pensamentos são abruptamente cortados por um forte tapa no rosto. Sinto o tal Sparring se debruçando sobre mim. As mãos apertam minhas bochechas de forma a machucar. E agora quando ele fala sinto sua respiração muito perto de meu rosto. A voz toma um tom muito baixo, ao contrário do que eu esperava.
- Não me venha com essa mesma repetição... Acredito que não seja a única coisa que sabe dizer em meu idioma.
- Gerard G...
Sem nem poder terminar a frase, recebo uma pancada na nuca. A dor percorre todo meu corpo como uma corrente elétrica e faz com que minha cabeça pareça estar a ponto de explodir. O gosto de sangue agora inunda minha boca, e em um ato reflexo eu o cuspo, mas infelizmente o Tenente não está mais a minha frente. E antes que eu me recuperasse da primeira, uma segunda pancada acerta em cheio o meu rosto. Essa certamente me fez perder algum dente, pois a dor me toma de assalto e uma golfada de sangue é arrancada de minha boca. A dor é forte, e como se não tivesse limites segue em vertiginosa ascendência...
... mas...
... espere, vejo uma saída. Sim, no canto atrás de uns caixotes, parece haver um buraco na parede que leva até um daqueles sistemas de esgoto. As luzes continuam sendo jogadas em todas as direções, a caçada não está nem perto de acabar. Algumas vozes passam do lado de fora do armazém e a ausência de um teto faz com que alguns feixes de luz sejam jogados aqui dentro pelos helicópteros de busca. Sei que minhas chances são mínimas, mas ainda assim tenho que tentar. É a única chance de fuga que tenho, e não terei como avisar Jack e Gillegard. Eles terão de se virar sozinhos.
Um momento de hesitação, e quando estou para correr um barulho me segura. Olho quase em desespero para o canto direito e vejo a fonte de meu susto. Um pequeno camundongo se delicia com farelos de alguma coisa. Um alívio percorre meu corpo tirando um pouco da tensão que me domina. Mas um rápido pensamento me faz estremecer novamente.
- Onde raios coloquei a merda da pílula?
As palavras saem em um cochicho, mas ainda assim fico imóvel para tentar escutar qualquer movimento estranho. Quando me sinto um pouco mais seguro, começo a tatear em busca da minha salvação (morte). Encontro-a no bolso lateral de minha calça, e tremulamente – mas desde quando estou tremendo? – retiro a embalagem que a envolve. Levo a pílula até uma posição onde possa enxergá-la...
Tão pequena, tão fatal. Vermelha como o sangue e mortal como esses depravados contra os quais lutamos.
“Será que as futuras gerações serão herdeiras ou apenas sobreviventes nesse mundo”?
Quase sem querer essas palavras surgem em minha cabeça, mas onde foi que a vi, tenho certeza que as tirei de algum lugar. Mas isso não é hora para pensar nessas coisas. O certo é que somos apenas sobreviventes e lutando para que as futuras gerações se tornem herdeiras desse mundo!
Sem pensar, coloco a pílula em baixo de minha língua e espero apenas o suficiente para as luzes deixarem a passagem às escuras e começo a correr. Vejo, agora, o meu local de fuga tão perto que já me sinto até mais tranqüilo por não ter que engolir o que seria minha morte. Quando finalmente resolvo cuspir a maldita, e me preparo para mergulhar em direção ao buraco, sou lançado aos céus por uma explosão bem atrás de mim. Uma pancada violenta me acerta na lateral, na altura da costela. Antes de perder os sentidos um último pensamento me ocorre enquanto olho o pequeno comprimido a poucos centímetros de mim, mas completamente sem forças para pegá-lo...
“Lutaremos até a morte”!
... mais uma pancada me atinge e sinto como se tivessem enfiado uma faca em meu lado. Minhas costelas estão praticamente cortando meus pulmões.
- Acorde.
Aquela mesma voz, que segue a me atormentar, por quanto tempo? Horas, dias, semanas? Até que eu lhe diga algo que ele julgue útil, se eu tiver sorte morrerei antes, senão...
Sinto nojo dessa gente, ou talvez seja pena. Nenhum deles tem um ideal pelo qual lutam. Não se importam com o que conseguirão aqui, nessa sala esta noite. Se eu não resistir e lhes der algo serão congratulados e mais mortes virão por aí. Mas caso resista e não lhes conte nada, terão um divertimento por algum tempo me batendo e torturando, talvez façam apostas para ver até quando agüentarei vivo, realmente não se importam, desde que tenham seu pagamento no final do mês.
Pra eles, sou apenas trabalho, aquele que os fazem cumprir doze horas de serviço diários. Pra mim eles são a escória, a merda que eu e meus companheiros queremos limpar desse mundo. Eles são os responsáveis por tornarem o mundo a o lugar desprezível que é hoje, a criminalidade, o medo, a miséria e a morte. Tudo isto domina a nossa população e faz com que nos tornemos submissos a esses bastardos.
- Sei o tipo de pessoa que você é – começou o tenente, todo imponente. – Estou acostumado com vocês. Tragam o Dr. Kerry!
Antes que a ordem fosse totalmente proferida já havia um soldado pronto para atendê-la. Este saiu tentando parecer disciplinado, mas o medo estava estampado em seu rosto. Logo, minha visão foi impedida pelo Tenente. Novamente, ele parava a minha frente e, mais uma vez sua calma me arrepiava.
- Fique tranqüilo, logo falará tudo o que queremos saber. E não sentirá dor alguma...
Ao dizer essas palavras ele se virou, antes que pudesse entender o que se passava em sua face. Caminhou em direção a um guarda que estava no canto da sala, e lá ficou. Dando as costas para mim e me deixando remoendo meus pensamentos. Mas o que ele quis dizer com “não sentirá dor alguma”? É mais um de seus truques? Estaria ele querendo brincar com minha mente?
Quando minha cabeça está para entrar em parafuso, a porta se abre com um rangido até estatelar na parede. Um homem baixo e magricela está parado no centro e com ele uma maleta. Um pequeno óculos se pronunciava na ponta de seu nariz a testa franzida parece me observar dos pés à cabeça. Toma um longo tempo nesse pequeno ritual que me deixa bastante nervoso. Forço-me a olhar ao redor e todos parecem similarmente estáticos, esperando pela entrada do pequeno doutor. Não me demoro nem dez segundos nos soldados e quando volto a olhar para a porta somente encontro o corredor vazio e a porta a se fechar. Foi uma visão? Um barulho, olho na direção e encontro o pequeno e assustador ser parado em frente a uma discreta bancada com sua maleta aberta e de lá ele retira uma enorme agulha seguida da seringa, maior e mais amedrontadora.
- Não se preocupe Gerard, logo estará nos contando tudo que queremos saber.
Uma pequena risada se seguiu. Sei que estou assustado, mas não tenho a menor intenção de tentar esconder isso. Aliás, devo estar parecendo um cão acuado, olhando rapidamente em todas as direções que ouço qualquer barulho e tentando me defender de qualquer coisa que possa me atacar. E um cão acuado tende a atacar quem quer que o ameace.
Sim, atacar. Essa é minha única salvação. Atacar quem me ameaça. E quem me ameaça agora é este doutor baixo e magricela com esta enorme seringa na mão. Tenho que esperar o momento certo.
Agora ouço os passos do pequeno doutor, são tão macios e rápidos e por essa razão não notei quando entrou na sala. Vasculho a sala à procura da caça e finalmente o vejo se dirigindo para as costas de minha cadeira, provavelmente se preparando para injetar algum tipo de coisa em meu corpo.
- Espere doutor!
A voz saiu de forma totalmente diferente do modo como o tenente falava anteriormente, era rápida, talvez nervosa. Ele estava apreensivo com o que estava prestes a acontecer, mas por algum motivo queria atrasar as coisas. Pigarreou de leve, quase imperceptivelmente. Ele refez a máscara de Tenente calmo e impassivo quando voltou a falar:
- O Dr. Kerry injetará o líquido em seu pescoço, através da aorta, assim ele rapidamente se espalhará por seu corpo, inclusive o cérebro. Você não mais terá controlo de suas ações e menos ainda de seu raciocínio. Suas forças serão nulas e a vontade de lutar mínima. Entregará de bom grado qualquer informação que queiramos.
Um breve momento de silêncio tomou conta da sala.
- Pode apostar nisso! – Por fim ele completou.
Então esse é o plano. Só vou ter uma chance. O doutor já havia se colocado atrás de mim e havia se preparado para aplicar o líquido em minha nuca. Apesar do que eu supunha esse breve instante demorou uma eternidade, mas minha vida não passou na frente dos meus olhos de maneira alguma.
Virei meu pescoço o máximo possível para poder ver o dr baixinho se preparando para agulhar o meu pescoço. Quando entra em meu campo de visão, percebo que seu braço já está percorrendo um arco em direção ao alvo.
- Só terei uma chance! – essas palavras saem em um balbucio, quase sem querer.
Tudo ocorre em uma fração de segundos.
Arqueio para frente o corpo o máximo que posso e que as amarras permitem. Em seguida impulsiono com os pés e me jogo de volta contra o braço do Doutor, que sem tempo para uma reação, segue com o movimento para me cravar a seringa. A enorme agulha rasga minha nuca e atravessa minha garganta fazendo o sangue jorrar e dominar minha boca. Apesar do que eu pudesse esperar não sinto dor alguma. Sei também que os planos da BIOS estão completamente a salvos, no que diz respeito a mim.
Quase que involuntariamente uma risada brota no canto dos meus lábios quando veja as expressões aturdidas na cara do Tenente e de seu soldado, também posso imaginar quão espantado estaria o Doutor Kerry. Os sons somem completamente de meus ouvidos, mas sei que a gritaria é frenética e estão todos querendo me reviver, mas cada vez me sinto mais próximo de estar a salvo e de ter conseguido proteger as futuras gerações.
A agulha é retirada fazendo mais uma golfada de sangue esguichar de minha boca. A visão começa a ficar turva, mas ainda consigo ver o Tenente gesticular de forma quase histérica, o que me dá a certeza de que eu seria a única chance de ele descobrir nossos planos. Lentamente essa imagem vai também sumindo de minhas vistas e a escuridão começa a dominar tudo, até que o vazio predomina.
Mas ainda assim estou feliz...
No final, tenho mais do que certeza...
A missão foi cumprida e eu fiz o meu melhor!
(Diego "Gordo" Salerno)


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