O Grande Desafio
A tenra idade dos treze anos reserva os maiores desafios que uma criança poderia passar. A independência, pois é nessa idade que começam achar que não é mais necessário o protecionismo dos pais, coisa que passa a ser conhecida como caretice. A socialização, as crianças, agora já adolescentes, começam a procurar suas “tribos”.
A turma da rua, ou gangue de garotos, é a primeira dessas socializações, mas antes se devem mostrar dignos para, por fim, serem considerados membros. O Grande Desafio.
Era exatamente diante do grande desafio que Francisco, ou Tico como era conhecido, se encontrava. Toda turma reunida, no final da Rua Sebastião Frossard, em frente ao Casarão. Era noite de Halloween, apesar de a data ser importada, o simbolismo era grande para as crianças. Além de vir a calhar muito bem para o teste. Este por sua vez muito simples, entrar no Casarão, permanecer por uma hora e sair com uma prova de que este lá.
O ar leve da cidade condicionado com o leve aroma de damas da noite, aliado ao vazio das ruas devido a preparação para o baile a fantasia já passavam um quê de estranheza. A lua cheia, mas encoberta por nuvens devido à época chuvosa não colaboravam para aliviar a atmosfera já sinistra do teste.
Tico havia sido levado até ali de olhos vendados, não soube até chegar ao local, do que se tratava a prova. Tudo já havia sido explicado, só faltava o sinal. E ele não tardou em chegar.
Fechou os olhos quando os primeiros fogos subiram aos céus, anunciando a meia-noite e o início do baile. Somente ouviu o barulho das explosões, sabendo que o tempo já estava correndo...
Antes que qualquer dos garotos falasse qualquer coisa, daria os primeiros passos em direção ao Casarão. Posicionaria de maneira mais imponente que conseguisse sustentar, e andaria a passos largos como se não tivesse dúvidas. Procuraria uma entrada muito rapidamente, pois quanto mais rápido entrasse, mais rápido sairia. As pedras, do caminho de cascalho que levavam até a casa, fariam muito barulho. O que serviria para amedrontá-lo ainda mais. Assustar-se-ia quando um galho roçasse a janela do segundo andar, mas já estaria muito longe e encoberto pela escuridão para que qualquer um dos garotos notasse, o que seria extremamente bom, pois o ar intrépido já estaria impossível de se manter.
Pararia a porta frontal, experimentaria a maçaneta, mesmo sabendo que iria serem vão. Um calafrio percorreria sua espinha, mesmo que levemente, pois ouviria o trinco se abrindo e a porta rangeria até que se escancarasse, e isso o surpreenderia. Deveria estar fechada.
Tudo estaria escuro, o coração a ponto de saltar pela boca, a garganta doeria e estaria seca de apreensão. O Medo. Agora não mais necessário disfarçar, mas lutaria bravamente contra ele. Daria, por fim, o passo que o conduziria para o interior do casarão, o interior de seu pesadelo.
O medo é capaz de confundir nossos sentidos.
O hall amplo e espaçoso estaria como era de se esperar, completamente vazio. Um grande tapete bordado cobriria quase todo o chão e os móveis estariam encobertos por lençóis, já amarelados pelo tempo. O cheiro de guardado seria pungente no local.
As sombras provenientes dos postes das ruas estariam bailando no grande salão. Por mais que lutasse, o puro terror já teria tomado conta de si. Sem nem mesmo notar já teria andado até a metade do hall e se assustaria com o barulho da porta se fechando logo atrás. Virar-se-ia ainda a tempo de ver u vulto que percorreria toda a parede em direção ao andar de cima.
Não adiantaria tentar correr, pois a parta estaria certamente fechada. As janelas jamais cederiam a seus esforços. Mesmo que quisesse não conseguiria. Os passos no andar superior só serviriam para apavorá-lo ainda mais. Algo pesado estava sendo arrastado por quem quer que estivesse vindo na direção da escada.
- Você deveria estar na sua cama, como a sua maldita mãe pensa que está.
A voz de seu pai viria como um trovão acertá-loem cheio. Olharia rapidamente para o topo da escada. Impossível, seu pai estaria no topo da escada, morto há pelo menos seis anos, acidente de carro dirigindo bêbado. A velha garrafa de cachaça em uma mão, e a outra estaria arrastando um corpo.
- Veja Marta, ele não está dormindo!
Com um movimento descuidado o monstro-pai torceria o,pescoço da mãe em um ângulo impossível.Os olhos dela estariam esbugalhados perdidos em algum lugar.
Estaria tudo aquilo realmente acontecendo? Sim, pois ele estaria olhando e vendo aquelas coisas. Sentindo aquelas sensações.
- Meu filho, por que não obedeceu a mamãe?
A voz chorosa e arrastada seria definitivamente de sua mãe. A essa altura já estaria completamente paralisado pelo mais puro pavor. Poderia, em vão, tentar explicar a mãe o que fazia ali. Certamente entregar-se-ia a um choro copioso e deitar-se-ia numa desamparada posição fetal.
Um forte vento começaria a soprar dentro da casa, e começaria a arremessar as coisas em várias direções. Uivos, lamentos, seriam ouvidos provenientes de todos os lados da casa. Tudo aquilo duraria um instante, ou uma eternidade e então desapareceriam. Levando consigo mais uma vítima. O pobre Francisco, ou o Tico. E ele seria esquecido para sempre.
Silêncio.
...Abriu os olhos. Os fogos haviam terminado. Todos aguardavam ansiosamente por sua decisão. Era chegada a hora de enfrentar seus demônios interiores.
O Grande Desafio.
Saiu, por fim, em direção ao Casarão.
A turma da rua, ou gangue de garotos, é a primeira dessas socializações, mas antes se devem mostrar dignos para, por fim, serem considerados membros. O Grande Desafio.
Era exatamente diante do grande desafio que Francisco, ou Tico como era conhecido, se encontrava. Toda turma reunida, no final da Rua Sebastião Frossard, em frente ao Casarão. Era noite de Halloween, apesar de a data ser importada, o simbolismo era grande para as crianças. Além de vir a calhar muito bem para o teste. Este por sua vez muito simples, entrar no Casarão, permanecer por uma hora e sair com uma prova de que este lá.
O ar leve da cidade condicionado com o leve aroma de damas da noite, aliado ao vazio das ruas devido a preparação para o baile a fantasia já passavam um quê de estranheza. A lua cheia, mas encoberta por nuvens devido à época chuvosa não colaboravam para aliviar a atmosfera já sinistra do teste.
Tico havia sido levado até ali de olhos vendados, não soube até chegar ao local, do que se tratava a prova. Tudo já havia sido explicado, só faltava o sinal. E ele não tardou em chegar.
Fechou os olhos quando os primeiros fogos subiram aos céus, anunciando a meia-noite e o início do baile. Somente ouviu o barulho das explosões, sabendo que o tempo já estava correndo...
Antes que qualquer dos garotos falasse qualquer coisa, daria os primeiros passos em direção ao Casarão. Posicionaria de maneira mais imponente que conseguisse sustentar, e andaria a passos largos como se não tivesse dúvidas. Procuraria uma entrada muito rapidamente, pois quanto mais rápido entrasse, mais rápido sairia. As pedras, do caminho de cascalho que levavam até a casa, fariam muito barulho. O que serviria para amedrontá-lo ainda mais. Assustar-se-ia quando um galho roçasse a janela do segundo andar, mas já estaria muito longe e encoberto pela escuridão para que qualquer um dos garotos notasse, o que seria extremamente bom, pois o ar intrépido já estaria impossível de se manter.
Pararia a porta frontal, experimentaria a maçaneta, mesmo sabendo que iria ser
Tudo estaria escuro, o coração a ponto de saltar pela boca, a garganta doeria e estaria seca de apreensão. O Medo. Agora não mais necessário disfarçar, mas lutaria bravamente contra ele. Daria, por fim, o passo que o conduziria para o interior do casarão, o interior de seu pesadelo.
O medo é capaz de confundir nossos sentidos.
O hall amplo e espaçoso estaria como era de se esperar, completamente vazio. Um grande tapete bordado cobriria quase todo o chão e os móveis estariam encobertos por lençóis, já amarelados pelo tempo. O cheiro de guardado seria pungente no local.
As sombras provenientes dos postes das ruas estariam bailando no grande salão. Por mais que lutasse, o puro terror já teria tomado conta de si. Sem nem mesmo notar já teria andado até a metade do hall e se assustaria com o barulho da porta se fechando logo atrás. Virar-se-ia ainda a tempo de ver u vulto que percorreria toda a parede em direção ao andar de cima.
Não adiantaria tentar correr, pois a parta estaria certamente fechada. As janelas jamais cederiam a seus esforços. Mesmo que quisesse não conseguiria. Os passos no andar superior só serviriam para apavorá-lo ainda mais. Algo pesado estava sendo arrastado por quem quer que estivesse vindo na direção da escada.
- Você deveria estar na sua cama, como a sua maldita mãe pensa que está.
A voz de seu pai viria como um trovão acertá-lo
- Veja Marta, ele não está dormindo!
Com um movimento descuidado o monstro-pai torceria o,pescoço da mãe em um ângulo impossível.Os olhos dela estariam esbugalhados perdidos em algum lugar.
Estaria tudo aquilo realmente acontecendo? Sim, pois ele estaria olhando e vendo aquelas coisas. Sentindo aquelas sensações.
- Meu filho, por que não obedeceu a mamãe?
A voz chorosa e arrastada seria definitivamente de sua mãe. A essa altura já estaria completamente paralisado pelo mais puro pavor. Poderia, em vão, tentar explicar a mãe o que fazia ali. Certamente entregar-se-ia a um choro copioso e deitar-se-ia numa desamparada posição fetal.
Um forte vento começaria a soprar dentro da casa, e começaria a arremessar as coisas em várias direções. Uivos, lamentos, seriam ouvidos provenientes de todos os lados da casa. Tudo aquilo duraria um instante, ou uma eternidade e então desapareceriam. Levando consigo mais uma vítima. O pobre Francisco, ou o Tico. E ele seria esquecido para sempre.
Silêncio.
...Abriu os olhos. Os fogos haviam terminado. Todos aguardavam ansiosamente por sua decisão. Era chegada a hora de enfrentar seus demônios interiores.
O Grande Desafio.
Saiu, por fim, em direção ao Casarão.
(Diego "Gordo" Salerno)
